Love is pain
And we'll do it again.
Estou agora ouvindo o grito ancestral dentro de mim:
parece que não sei quem é mais a criatura,
se eu ou o bicho. E confundo-me toda.
Fico ao que parece com medo de encarar instintos abafados
que diante do bicho sou obrigada a assumir.
(...)
Nada existe de mais difícil que entregar-se ao instante.
Esta dificuldade é dor humana.
É nossa.
Eu me entrego em palavras...
(Clarice Lispector)
Eu queria te contar que agora não dói mais. Só que agora não importa tanto o que você vai pensar sobre isso. Queria que você soubesse que já vi nossos filmes milhares de vezes e nem chorei. Ok, chorei. Mas pelo filme, e não por você. Queria que você soubesse que tirei a poeira das nossas músicas, e que as ouço quase todos os dias. Porque elas me faziam mais falta do que você fez. Os nossos lugares não são mais nossos. Eu já voltei lá com outras pessoas, e escrevi lá outras histórias. Eu estou aprendendo a tocar violão. E a primeira música que toquei foi aquela música que era uma espécie de hino para nós dois. Ela é tão linda. E sim, ela continua sendo muito nossa e lembrando demais você. Mas ainda sim, não dói. Você não pergunta essas coisas, mas sei que gostaria de saber. Porque te conheço. E isso não mudou. Do mesmo jeito que adivinhei as coisas ruins que você aprontaria, eu sei as coisas boas que ficaram aí em você e te fazem lembrar de mim. Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais.
— Caio Fernando Abreu.
Hoje finalmente, depois de 4 meses sentindo ainda algumas dores aleatórias do vazio que tu me deixaste, depois de 4 meses te lembrando forçosamente em cada cômodo de casa, onde por quase 2 anos repousamos nosso amor, nossas loucuras, nosso sexo, nossas dores, sorrisos, lágrimas e abraços... Hoje depois de 4 meses absorvendo aos poucos, a cada manhã, a sua ausência e seus motivos insignificantes, depois de 4 meses tratando dolorosamente a ferida, cuidando e observando com cautela a sua cura, hoje finalmente, me sinto inteira.
Depois de toda essa metamorfose interna, toda essa turbulência externa, me sinto no controle, me sinto no lugar certo, na hora certa.
Depois de tantas lágrimas, hoje o que me resta são gargalhadas.
O grande prazer da liberdade, de peito aberto, mente limpa, coração manso, alma inquieta, desesperada por viver tudo, descobrir tudo e ser tudo... Mas agora é diferente, agora sou diferente.
Hoje finalmente, depois de tanto te evitar, em todos os sentidos, todas as direções e todas as possibilidades, vejo uma foto sua, recente, pelo acaso, e me sinto ilesa.
listening: